O jogador de 29 anos, da Zona Sul do Rio, relembra as dificuldades e a homofobia que tentou 'podar' sua carreira até brilhar na seleção.
O líbero Douglas Pureza, aos 29 anos, viveu um momento de pura emoção e realização ao estrear pela seleção principal de vôlei no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Para o carioca, nascido e criado no Morro do Cantagalo, na Zona Sul, pisar no templo do vôlei mundial representou a concretização de um sonho de infância.
A estreia de Pureza ocorreu durante a vitória tranquila do Brasil por 3 sets a 0 sobre a Bolívia, em partida disputada no Sul-Americano. O acolhimento fervoroso da torcida, com pedidos de fotos e autógrafos, contrastou com um início de trajetória marcado não apenas pela falta de estrutura, mas principalmente pela persistente homofobia.
Em uma conversa exclusiva após o jogo, Pureza destacou a importância de estar em casa, com a família presente, e a oportunidade de disputar um campeonato fundamental. O torneio visa garantir a vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, o que seria mais um passo gigantesco em sua carreira.
Douglas Pureza: Das areias de Ipanema à Seleção Brasileira
A paixão de Douglas Pureza pelo vôlei nasceu de forma despretensiosa nas areias da praia de Ipanema, perto do Posto 8. Ali, seus pais trabalhavam com aluguel de barracas e venda de bebidas, e o jovem Pureza aproveitava para brincar e se divertir com a modalidade.
O que começou como recreação se tornou sério por meio de projetos sociais, que abriram portas para sua entrada nas categorias de base do Flamengo. Em 2014, ele deu o salto para o Sesi-SP, onde fez a transição para o profissional, clube no qual permanece até hoje.
As dificuldades financeiras foram uma realidade no início. Pureza relata que os custos para viajar para competições ou até mesmo para se deslocar para os treinos, como os que fazia em Niterói, eram um grande desafio. Ele sempre contou com o apoio essencial da família, incluindo sua irmã Dayane Pureza, ex-jogadora da base do Fluminense, casada com o ponteiro Gabriel Vaccari, também do Sesi-SP.
Sonho Realizado e Inspiração no Maracanãzinho
A sensação de jogar no Maracanãzinho, a casa do vôlei brasileiro, é descrita por Pureza como a “realização de um sonho”. Ele lembra de sua infância, quando frequentava o local para assistir aos jogos da Superliga feminina e masculina, sempre na grade, buscando fotos e autógrafos de ídolos como a bicampeã olímpica Fabi Alvim, que atuava na mesma posição de líbero.
“É loucura, né?! A gente, às vezes, até esquece desses momentos lá de trás, que vinha e ficava igual a eles assim para pedir fotos e autógrafos. Eu já estive neste lugar”, recorda Pureza. Agora, a situação se inverteu: ele é o atleta solicitado, permanecendo por vários minutos após a partida para atender à torcida.
Pureza foi acionado pelo técnico Bernardinho no início do segundo set da partida contra a Bolívia e permaneceu em quadra até o match point. Esta temporada marca a primeira vez em que ele foi convocado para a seleção principal, ao lado de Bryan, Gabriel Bieler, Barreto e Samuel, e o momento é de total foco no Sul-Americano e na vaga olímpica.
Pureza e a Luta Contra o Preconceito e a Homofobia no Esporte
Um dos maiores desafios na trajetória de Douglas Pureza foi a homofobia. No início de sua carreira, a falta de referências de atletas abertamente gays no vôlei o fez tentar se “podar”, por receio de que seus trejeitos pudessem impedir sua chegada ao profissional. “Sempre tentei me podar muito e isso foi prejudicial para mim, mas hoje sou outra pessoa”, afirmou.
Atualmente, o cenário é outro na seleção brasileira. Pureza, Douglas Souza, Maique Reis e Adriano Xavier são jogadores abertamente gays, com Douglas Souza sendo o primeiro medalhista olímpico assumido. No entanto, o preconceito ainda persiste, como evidenciado por ataques severos nas redes sociais em junho.
Na ocasião, uma postagem do perfil oficial do Volleyball World Brasil, divulgando a camisa com detalhes nas cores do arco-íris em alusão ao Dia Mundial do Orgulho LGBTQIAPN+, recebeu centenas de comentários homofóbicos. Pureza classificou os ataques como “bem pesados”, direcionados à sua pessoa, e expressou o desejo de que as gerações futuras não enfrentem dificuldades semelhantes.
Dentro da seleção, ele encontrou um ambiente receptivo e unido, muito diferente do que viu nas redes sociais. Conquistando seu espaço na disputa com o amigo Maique, Pureza sente-se lisonjeado por ser uma referência e tenta transmitir uma mensagem de persistência a outros jovens. “É difícil. Realmente as portas se fecham para gente por causa de um trejeito, por causa de uma dança, de uma jogada de cabelo... Coisas simples. Nossa existência é sempre julgada. É muito importante que a gente construa isso, esteja ocupando esses lugares”, concluiu o líbero.
Perguntas Frequentes
Quem é Douglas Pureza, o líbero da seleção brasileira de vôlei?
Douglas Pureza é um líbero carioca de 29 anos, nascido no Morro do Cantagalo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele atua profissionalmente pelo Sesi-SP e fez sua estreia na seleção principal do Brasil no Maracanãzinho, durante o Sul-Americano de vôlei.
Qual a importância da estreia de Pureza no Maracanãzinho?
A estreia de Douglas Pureza no Maracanãzinho é a realização de um sonho de infância para o atleta, que frequentava o local para assistir jogos. Além disso, representou um momento de superação pessoal e visibilidade para a comunidade LGBTQIAPN+ no esporte, em um palco importante do vôlei brasileiro.
Douglas Pureza enfrentou preconceito por ser gay no vôlei?
Sim, Douglas Pureza relatou ter enfrentado homofobia no início de sua carreira, sentindo a necessidade de “podar” seus trejeitos por receio de não ser aceito no meio profissional. Mais recentemente, foi alvo de ataques homofóbicos nas redes sociais após uma postagem da CBV em alusão ao Dia Mundial do Orgulho.
Quais outros jogadores abertamente gays estão na seleção de vôlei junto com Pureza?
Além de Douglas Pureza, a seleção brasileira de vôlei masculino conta com Douglas Souza, Maique Reis e Adriano Xavier como jogadores abertamente gays. Douglas Souza, inclusive, é o primeiro medalhista olímpico assumidamente gay no vôlei.
